sábado, 2 de abril de 2011

Laila Assef entrevistada por Cristina Siqueira

Laila Assef brasileira, nasceu em Belo Horizonte,Minas Gerais.Mineira de formação e convicção. De fé.Ariana com ascendente em sagitário.Uma chama. Indomável arteira. É de si que brota um caudaloso fluxo criativo, instigante, envolvente em delicadeza.Voyeur das formas construídas, do surpreendente levado ao espanto, cada peça uma jóia!Vai garantindo em luz o seu trabalho alinhando sua carreira de fundamento intuitivo com seu olhar atento, sua linguagem do mundo.Sendo assim uma cena que passa.Na bagagem a beleza, carta de recomendação que possui,a desenvoltura estilística impecável,a coerência estética,a metamorfose dos objetos da sucata ao luxo,do plausível ao transcendente.

Laila é silêncio, único fôlego,efeito.

-Você ama Trancoso?

Nossa senhora! Apaixonadamente.

-Como você ama Trancoso?

Esse amor é igual a encontrar aquele bom companheiro. -Sabe aquele? A cidade fez muito por mim e me oferece coisas maravilhosas, pessoas maravilhosas.Sabe quando você é criança e o amiguinho tem que dar um pezinho para subir na árvore, escalar um muro , pois é assim, Trancoso me deu um pezinho. Sempre para mim é uma surpresa ver o mar, as falésias. Eu quero ver mais, quero sempre.O fato de ter vindo para cá sem conhecer ninguém, sozinha, começando uma nova historia, amigos, adotar os pais e os filhos dos amigos. Mas acho que sou mais de adotar pais do que filhos.O fato de a região ser mesclada com tribos de índios, conviver com isso, participar dos rituais no meio da mata. Estar próxima deste Brasil. Ir ao Quadrado e relembrar como era a vida antes, as florzinhas cor de rosa.Depois que eu vim para cá minhas saídas são limitadas ao Arraial da Ajuda e ao Espelho, nem a Caraivas eu tenho ido. Agora fico encantada por aqui.Quando eu morava em grandes centros como São Paulo, Belo Horizonte, Rio eu sentia o desejo de ir a outros lugares agora essa vontade passou.


-Laila, em muito pouco tempo você fez muitos verões? Como foi isso?

Precisei de muitas primaveras para fazer isso.É o resultado de uma vida, as conquistas, os ideais, fui ficando mais pronta para o ato de realizar as vontades, as idéias, sem medo, cheia de vontade e energia.Quando estou fazendo um trabalho o que mais gosto é ver brotar esta força , a disposição para produzir, ela é que é encantadora. O objetivo é maravilhoso mas estar disposta e sem limites, rejuvenesce. Criar é ser criança, é muito bom.Quero ver pronto! Tudo! Adoro! E gosto de participar até o ultimo momento.Para entregar um trabalho, seja em cenário ou o que for eu é que tenho que ir lá colocar.Dou um toque em tudo.

Eu amadureci minha arte, fazendo.

Foi ai que eu descobri minhas capacidades. Aqui eu tive toda a liberdade de fazer o que eu quero fazer, seja um trabalho bordado, o trabalho com as garrafas pet , fui apurando a estética experimentando muitos materiais.Transformar em flores as pets descartadas pelas praias é um conceito ,uma arte alquiímica.Se você tem um senso estético o resultado final da obra é bom. Tem uma coisa gostosa, se você faz muita coisa você não precisa ser “a melhor” naquilo que faz – faço bem o meu trabalho sem obrigações com tesão.

-E daqui para frente?

Garanto que vai ser uma surpresa inclusive para mim.Sempre é.

-E a menina dos olhos?

Depende da paixão do momento.A Cheia de Graça, começou de graça e agora ela me rende graças. Eu nunca pensei em ter loja. Queria um lugar no Quadrado para expor o meu trabalho. Cheia de Graça foi uma ousadia. Quando eu abri a loja era pintora e fazia algumas caixas com cores de coração. E tudo foi acontecendo magnificamente. Fui criando molduras, espelhos, almofadas bordadas. Conheci ai toda a minha feminilidade porque as peças eram extremamente delicadas. O que era engraçado porque saia de mim uma pessoa de voz rouca, de gestos amplos ,apressada que fez surgir aquele mundo de Alice.

O que me encanta de ter loja é que ela te pede sempre novidade. As peças surgem, nunca sei o que vou fazer. Qualquer pedaço de tecido, vela, pode ser uma produção para a loja. A Cheia de Graça é uma fofa, ela acolhe tão bem o que é criado no Ateliê com minhas artesãs bahianas,com serralheiro e marceneiros aqui da cidade. Ta tudo perto de mim.Das minhas viagens trago “encantos”,peças preciosas que coloco em exposição para venda.

Teve a fase do Bistrô Adipe que me trouxe a satisfação de ver tudo restaurado, harmônico aconchegante e alem de tudo funcionar realmente.Fiz uma pausa no meio do caminho e fuiconstruindo com meus objetos,grades de ferro,móveis um lugar de aconchego.Criei o espaço para receber amigos,convidando chefes a participarem comigo.Uma curtição gastronômica. No Bistrô eu vivi o ato de bem receber. Normalmente, nas ruas eu sou uma pessoa fechada, mas no meu espaço eu sento, converso, sou simpática.Adoro servir champanhe, devo me controlar para não passar na frente do garçom.Agora tenho um Café lá no Cheia de Graça e entre docinhos e cafés também sirvo champanhe.

-Vida?

E uma sementinha que vem dotada de tudo. Esta passagem nossa por mais que a gente tenha fatores que interfiram nesta encarnação, como carmas, coisas a ser resolvida ela, a sementinha vem plena de possibilidades, habilidades. Nós viemos bem dotados por mais que vemos pessoas com historias que a gente não entende. O livre arbítrio é que faz a diferença de cada um. A vida é bela.

-Como você cuida deste teu patrimônio subjetivo que te faz intima de ser criadora, criatriz?

Este patrimônio é que cuida de mim não é um ato de consciência. Eu não montei um bistrô com a certeza de que eu sabia fazer. Com as pets fui descobrindo formas,texturas,flexibilidade ,possibilidades de beleza.A criação tem vida própria eu sou só veiculo.Tudo vem pelas experimentações,pelos contatos, pelos amigos, pelas viagens.

-Como você arruma as malas?

Cuidadosamente.Minhas malas são cheias de esperança.Arrumar uma mala para fazer uma viagem é um processo, antes disso eu organizo minhas finanças, a casa, as gavetas. Quando eu chego na mala eu penso em todas as possibilidades do que pode acontecer.

Antes vai tudo para cima da cama.Os sapatos vão para o chão e não são poucos.As calças e as blusas, os biquínis que nunca podem faltar, as bijoux, as jóias e as bolsas.Agora eu penso mesmo é nos sapatos. Eu gostaria muito de usar um par de sapatos cada dia. Será que é para cada dia acontecer um caminho diferente. Tenho tudo em saquinhos. E são muitos os óculos. Óculos claros e óculos de sol e todos com grau. E é claro a receita vai junto pois se eu me encantar com uma armação no trajeto a armação está ali. Tenho uma gaveta de óculos.

E os meus xales, e os kikoys, dão para montar uma tenda nos hotéis onde me hospedo.Eu me mimo para tudo. Eu me mimo com as flores no meu quarto, eu me mimo com chocolate, eu me mimo com champanhe, eu me mimo tratando muito bem dos meus cães do Carter, da Lola minha cachorra canadense que late em português e entende tudo que eu falo,do Dark e do Black seus filhotes pretinhos.

Voltando a mala... a mala em si tem que ser linda. Eu tenho uma mala vermelha que adoro. As malas tem que ser durinhas. Eu não carrego roupas que precisam passar.

-E a nécessaire? A nécessaire é tudo, a minha amiga Lili de Belo Horizonte leva dois nécessaires mas eu me contento com um mesmo – xampus grandes, olha o comprimento dos meus cabelos, perfumes, cremes.Se eu vou fazer uma viajem curta ou longa a produção do nécessaire é a mesma.

-Percebo que as pessoas que mudaram de um estilo urbano para Trancoso optam por um estilo mais largado e você ao contrario você traz a sofisticação para cá.Como é isso de sofisticar o simples?

Eu mudei para viver a felicidade, para usufruir o que eu tinha de melhor em mim. Eu trouxe comigo a minha mala a minha bagagem de vida. Ser largada não me faz mais feliz, ser largada é me cuidar. Eu larguei a falta de tempo para lá.

Eu acredito que esta gente que muda para um lugar como este acredita que vai ser uma pessoa contente por caminhar na praia, meditar, andar de bicicleta, mas por ai não é legal ir de bicicleta com uma cestinha com flores, um super chapéu, fora o óculos Dolce Gabana?- por favor não é mais legal? Mesmo que o perfume seja alfazema para agradar Iemanjá.

-É possível ser feliz sozinha?

É, mas chega de ficar sozinha. Com amor é muito melhor. Quando vim para cá eu queria viver este processo sozinha agora te falo honestamente, que um companheiro é muito bem vindo. Eu já consegui construir o que eu gostaria de ter antes de estar com alguém. Agora pode até mudar tudo. Hoje eu estou aberta para um companheiro para começar tudo isso de novo. É outra historia.

-E o que você espera de um companheiro?

Hoje eu sei o que eu espero porque eu sei rezar. Eu quero um homem que me atraia, que eu tenha admiração, que eu goste do cheiro, das mãos, da pega. Que tenha vivido muitas experiências, que conheça outros países, que se surpreenda não só com a minha vida mas com a própria vida.Que seja delicado, com as pessoas ,ta? Que tenha, admiração pelo povo. Que seja espiritualizado. Que seja independente financeiramente, que respeite a família dele e a minha. E mais do que tudo que me ame e eu o ame.

Espero que neste momento ele esteja aproveitando a vida assim como eu para a gente poder se encontrar.

Laila amada,

Gosto muito de estar com você. Amo Trancoso também. Gosto de ficar sentada neste Quadrado usufruindo a paisagem.A igreja de Sâo João iluminada sorri para mim em sua alvura dos séculos.Que delícia de ver os cachorros vagabundos e ouvir os sotaques do mundo se entrelaçando em beijos.

Que delícia sonhar!

Teus sonhos e os meus neste Universo,verso bendito!

Fazer-se aparte.

O ar fresco,o vestido leve,feliz,muito muito feliz.

Feliz de vida!

As casinhas iluminadas,tempo de fábulas,a Cheia de Graça em Graça de Deus com sua arte que ilumina.O sabor do brigadeiro.Os olhos se encantam com a naturalidade com que sua arte faz o espaço tornar-se em beleza e harmonia.

Todas as vezes que venho à Trancoso realizo este trabalho que tanto me gratifica de escrever como você compõe sua arte .O caminho aberto onde aparecem traços de um futuro livro.Como um buque vou amarrando páginas esparsas no tom expressivo que passa pelo coração.

E da lembrança do Atelier no Sítio Rosa dos Ventos trouxe os versos:

A inspiração acorda a vida

e nas mãos da artesã

o plástico que rodou perdido

pelas praias,matas e trilhas

encontrou o seu destino

no reino das maravilhas

E assim se Deus ajudar

neste mundo que reinei

haverá a impressão

que o sonho em preto e branco

que se vê assim de frente

num sopro de salvação

será vivo eternamente

num projeto feito com alma

que traz nobreza ao inverso

de flores me cores carentes

saindo de nossa palma

no tempo de muita calma

um novo sentido de gente



7 comentários:

Jorge Sader Filho disse...

Outra apaixonada por Trancoso, como você, Cris.
Todos os que conhecem dizem maravilhas do lugar. Pelas fisionomias de vocês, está provada a afirmação!
Parabéns pela postagem.

Beijos,
Jorge

Machado de Carlos disse...

Tudo belo por aqui. Saudável!

Phivos Nicolaides disse...

Parabéns por bela postagem. Se você tiver tempo, visite o meu blog de viagens, que está em Inglês e em grego. Abracos, Felipe

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Bacana a entrevista, Cris. Vontade danada de conhecer Trancoso! Um beijo e obrigado pelo comentário em Consoantes Reticentes.

Vanuza Pantaleão disse...

Foi mesmo uma entrevista ou um sonho?
Duas belas e delicadas mulheres num diálogo genial e tendo Trancoso como foco principal...até rimei sem querer.

Lindo...
Deus abençoe a Laila e a ti, minha amiga do coração!!!

alex c. disse...

muito legal seu blog, sou apaixonado por trancoso, estarei de volta em breve...

Vieira Calado disse...

Olá, amiga!

Passei pelos outros seus blogs

e vejo que não tem estado muito activa...

Espero que seja apenas...

por falta de tempo...

Bjjss